Ninguém me ama / Ninguém me quer / Ninguém me chama Nicolas Behr

Diego – Alô

Nicolas – Bresani! Tudo bem? Eu sei que teu nome é Bresani, mas vou te chamar de BRESSIANI, ok?

Diego – Ok! Sem problemas!

Nicolas – Você ainda está fazendo retratos né? Então Bressiani, tive uma idéia. Acho que seria interessante se você me fotografasse levantando a camisa, mostrando minha barriga, peito…. o que acha? Poderia ser aqui no viveiro? O que acha?

Mamãe, eu quero ser um ipê

Um conto de Juliano Cazarré

Acordou num domingo e viu o filho, seu menino querido, plantado no jardim. Oito anos apenas, idade em que tudo faz sentido. Com um regador na mão, ele derramava água pelas canelas afundadas na terra. Era um garotinho brincalhão e criativo, preferia um pedaço de barbante e uma pedra a um brinquedo de plástico com luzes. Por isso mesmo a mãe não se assustou com a cena, apenas se preparou para mais uma história das boas.

Ela se aproximou do filho e perguntou o que ele fazia ali, se regando.
- Mãe, eu quero ser um ipê.
- Por que você quer ser ipê?
- Na minha escola tem uma árvore. Uma buganvília (ele pronunciou a palavra com orgulho, num tom quase pernóstico), e eu gosto tanto tanto dela, que quero casar com ela.
- Não, meu filho, não é assim, você é um ser humano, tem que se casar com uma moça e…
- Ah, mas o tio Fabrício é um ser humano e é casado com o tio Otávio, que é homem.
- A mamãe já te explicou que o tio Fabrício tem uma doença.
- Mas o tio disse que não é doença, disse que é só uma opção sexual.
- E você, por acaso, sabe o que é opção sexual?
- Claro que sei, é quando a gente escolhe as coisas. Eu escolhi que quero ser árvore. Árvore sexual. Agora, dá licença, mãe, que eu preciso de luz pra brotar.
A mãe achou melhor pedir ajuda pro pai. Lendo o jornal, tomando seu café, esfumaçando-se com o primeiro cigarro do dia, ele não quis prolongar a conversa:
- Nah! Daqui a pouco, a fome bate e ele volta pra dentro.
Não voltou, passou o dia lá, sob o sol, vestido apenas numa cueca amarela, concentrado-se em fazer brotar suas primeiras folhinhas.
No começo da tarde, a mãe levou um copo de suco e biscoitos recheados, que foram ignorados pelo menino. Ele disse, porém, que aceitaria um copo de água.
Aquilo já estava começando a ficar absurdo.
- Filho, se você gosta tanto dessa árvore da escolinha, porque você vai se plantar aqui no quintal? Não é melhor, esperar até segunda e…
- Mãe, árvore não é que nem gente, que tem que tá junto pra tá junto. A gente tá sempre junto com tudo, mesmo quando tá longe. Eu, por exemplo, vou continuar junto com você, mesmo quando você for pra praia nas férias. Você lá e eu aqui, juntos.

Ela ainda tentou um ou dois argumentos para demovê-lo da absurda idéia de virar árvore. Mas o menino estava decidido, queria ser um ipê, casar com sua amada, ter formiguinhas andando pelo corpo e ninhos de passarinho nos braços.

Seis, seis e pouco da tarde, terror. O sol já estava de pantufas, pronto pra ir deitar. Ela correu até o marido. E pede, e implora, e explica, e vamos, e meu bem, e me ajuda… Em vão, não adiantou. O pai acabara de chegar da rua, estava exausto, precisava de um banho.

Pobre mulher, no seu desespero correu até o filho e tentou puxá-lo, arrancá-lo. Não conseguiu. O garoto havia se regado muito e a terra estava bem acomodada entre seus pés-raízes.

Agarrou as mãozinhas do filho e estranho que a pele infantil do menino estava mais grossa. A mãe sentou na grama e ficou esperando que acabasse o telejornal, para que o pai viesse, enfim, ajudar. Era dia de futebol na tevê, o pai não veio e ela, cansada, adormeceu.

Acordou no dia seguinte, com um pardal que cantava, pousado em um galho do filho. A mãe não teve dúvidas, seu instinto materno a informava que só havia uma coisa a ser feita. Ela buscou a bolsa e as chaves do carro e saiu para comprar adubo.

Como ela amou aquele filho ipê! Amou-o com o amor louco das mães de bandidos. Dessas mães que se jogam aos pés de policiais para que não levem, não matem seus pequenos e indefesos assassinos. Amou e regou o filho. Adubou, podou, bateu fotos na primavera. Trocou a cômoda por uma estante com ferramentas de jardinagem.

Todo ano, quando na seca caíam as folhas do pequeno, ela se angustiava. Mal podia esperar que ele florescesse. Na verdade, ela tinha era medo de que as folhas não viessem e o filho morresse sem ela perceber.

O menino-ipê se desenvolvia a olhos vistos, fertilizado sempre pelo amor de sua mãe, e de sua querida buganvília. Ele estava certo, árvores não precisam estar juntas para se casar. Sua percepção é diferente, e ele de sua casa, amava sua buganvília e era amado em troca. No cerrado, por exemplo, às vezes elas parecem tão sozinhas, não são. São seres felizes.

Anos depois, quando o ipezinho já entrava da adolescência, sua antiga escola precisou aumentou um pavilhão para receber mais alunos. Uma parte do parquinho foi sacrificada para isso, e não tiveram opção senão derrubar a buganvília.

Do seu quintal, ele sentiu muito. As folhinhas caíram todas fora da época. Ressecou e não quis mais sugar a água que sua mãe lhe vertia diariamente.

A mãe, percebendo que o filho definhava, sentindo os dedos finos da morte lhe roçarem a nuca, resolveu agir. Mais uma vez o instinto materno se manifestava, não deixando dúvidas quanto ao que deveria ser feito. Ela correu até a estante de ferramentas e pegou a única que ainda não havia sido usada. Uma machadinha que estava sendo guardada para o caso do filho se enroscar em fios de alta tensão.

Pegou a machadinha e botou o filho abaixo. Com cuidado acolheu-o entre os braços e deitou-o na caminha, há tanto tempo desabitada. Cobriu seu querido filho-ipê com um cobertorzinho azul claro, contou-lhe uma historinha e deixou ele dormir.

No dia seguinte, foi visitá-lo de manhã no quarto. Dormia doce. A mãe ficou feliz por ver de novo aquele rostinho humano e rosa. Um pouco mais velho claro, mas era o mesmo, a mesma coisa. A não ser pelos pés, que agora lhe faltavam. Ficaram enterrados no jardim, em forma de toco.

_______________________________________________________________

Menino – Juliano Cazarré

Pai e Mãe – Hugo Rodas

Locação – Pau-Brasília Viveiro.Eco.Loja

Agradecimento especial – Poeta Nicolas Behr por nos receber domingo à tarde em seu viveiro.

Editorial Celebrare


Fotos: Diego Bresani

Tratamento de Imagem: Lucas Malta

Beleza: Eduardo Mansur, Gigi e Ney Lima, todos da equipe do Ricardo Maia

Produção Executiva: Max Araújo e Saulo Almeida

Stylin’: Raoni

Modelos: Helena Hoffman, Juliana Ciarlini e Larissa Mascarenhas da Scouting Models e Ana Paula Farago, Bárbara Isquierdo, Ingrid Wensing,  Letícia Cavadas, Luiza Almeida, Raquel Elsing, e Tharla Stambassi da Glam.

Editorial realizado em parceria com a Revista Fino Trato, Max Araújo e Saulo Almeida