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Parte I
     Nascido em Brasília, passei minha infância e adolescência na superquadra 309 norte, no bloco L. Como a maioria das crianças do plano piloto, criadas em superquadras, passei boa parte da minha infância debaixo dos blocos entre os pilotis. Sendo assim, a minha convivência com os porteiros destes prédios era intensa. Eram eles: Raimundo, Marcos, Tião e Manoel. Eram como heróis. Faziam os primeiros curativos quando alguma criança caia do skate ou da bicicleta; nos avisavam dos carros que vinham da rua, evitando o atropelamento de alguém; passavam de um apartamento para o outro, pelo parapeito da janela para abrir uma porta trancada por acidente; jogavam bola conosco quando nossos colegas não podiam descer para brincar. Enfim, eram os nossos super-heróis das superquadras.
 

Parte II
      Com 30 anos de idade volto ao bloco L e ao bloco P da superquadra 309 norte com o objetivo de fotografá-los. Todos ainda trabalham lá. Decido então fazer um retrato simples de cada um deles, pessoas centrais de minha infância, ocupando o mesmo lugar que ocupavam há 30 anos. O primeiro a ser fotografado é o Tião. 20 anos nos separam. Vou ao encontro de um dos meus super-heróis. Nos primeiros minutos de conversa vejo que alguma coisa mudou. Tião agora me chama de Senhor, responde "Sim Senhor" para todo pedido que eu lhe faça. Ele agora me trata como tratava meus pais na minha infância, em uma típica relação de patrão-empregado. Termino de fazer os retratos, agradeço e vou para casa bastante incomodado.

   Tento entender porque ele me trata diferente. Então vejo que o que acontece agora é que eu tenho idade para perceber a tensão social que existe entre nós, o que certamente o faz me chamar de senhor. Antes eu via apenas o meu super-herói e não como alguém que tentava manter seu emprego. Mas será que ele me via apenas como o filho do patrão, a quem ele deveria tratar bem? Então meus super-heróis estavam na verdade, simplesmente trabalhando? Chego à conclusão que quem mudou fui eu e não ele. Eu, que percebo somente agora, a distância que existe entre nós.
   Tião, Raimundo, Marcos e Manuel ainda trabalham no mesmo lugar, recebendo um salário mínimo e morando nas mesmas cidades satélites.

    

Parte III
      Volto para fotografá-los novamente. O confronto que existe entre como eu os via, como eu os vejo hoje, depois desta reflexão, e como eles de fato possam ser. Esses homens que por alguns anos, mesmo que não propositadamente, sem saber, foram de fato meus super-heróis e os agradeço muito por isso.


 
 
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Part I

     Born in Brasília, I spent my childhood and teenage years in the Superquadra 309 North, building L. As most children from Plano Piloto, raised in Superquadras, I spent a good portion of my early years under the buildings, between the pilotis. Because of this, my interaction with the janitors of these buildings was constant. They were: Raimundo, Marcos, Tião and Manoel. They were like heroes. They would make the first bandages when a kid fell from the skate or the bicycle, they would warn us of the cars that came from the street, preventing us from being run-over; they would pass from one apartment to the other, over the building’s ledge, through the windows, to open a door locked by accident; they would play soccer with us when our friends could not come down to play. In short, they were our super-heroes of the Superquadras.
 

Part II
     Now 30 years old, I return to the L and P buildings of the Superquadra 309 with the intention of photographing my former heroes. They all still work there. I decide to make a simple portrait of each one of them, people central to my childhood, occupying the same place they occupied 30 years ago. The first one to be photographed is Tião. 20 years set us apart. I go find one of my super-heroes. In the first minutes of conversation I see that something has changed. Tião now calls me “Sir”, and answers “yes, Sir” to any simple request I make. He now treats me as he used to treat my parents when I was kid, in a typical boss-employee relationship. I finish making the portraits; thank him and head home disturbed.

     I even try to understand why he treats me differently. Then I realize that what happens now is that I have aged enough to notice the social tension that exists between us, what certainly makes him call me “Sir.” Before I could only see him as my super hero and not as someone who was trying to keep his job. But did he only see me as the son of a boss, whom he should treat well? So my super-heroes were in fact simply working? I reach the conclusion that I was the one who changed, and not him. I, who only now clearly realize the distance that exists between us.
     Tião, Raimundo, Marcos and Manuel still work in the same place, receive the same minimum wage, and live in the same satellite cities.

    

Part III
      I go back to photograph them again, to picture the confrontation that exists between how I used to see them, how I see them now, after this reflection, and who they may perhaps be. These men that for some years, even if purposefully, without knowing, were in fact my super-heroes, and whom I thank them very much for it.